6 de set. de 2026

Por que o Brasil é um dos países menos afetados pela guerra do Irã

Desde 28 de fevereiro de 2026, quando os ataques dos Estados Unidos e de Israel abriram a guerra contra o Irã, e 4 de março, quando o Irã fechou o Estreito de Ormuz, o mundo vive o que a Agência Internacional de Energia chama de a maior ruptura de oferta da história do mercado de petróleo. O Brent foi de US$ 72 o barril em 28 de fevereiro para US$ 112 em 27 de março e, na primeira semana de setembro, ainda estava acima de US$ 96 depois de uma nova troca de ataques. A Europa adiou cortes de juros, as refinarias asiáticas saíram à procura de qualquer barril que não precisasse passar pelo Golfo e o preço dos fertilizantes subiu até 40% em três semanas.

O Brasil é uma das grandes economias menos afetadas. O presidente Lula disse isso ao abrir a Hannover Messe, em abril, e a afirmação foi repetida vezes suficientes para valer a pena mostrar o que os números de fato indicam, inclusive a única área em que o Brasil está exposto.

O Brasil vende o que falta ao mundo

O Brasil produz cerca de quatro milhões de barris de petróleo por dia. A Kpler estima a produção em 4,06 milhões de barris por dia entre janeiro e maio de 2026, contra 3,77 milhões em 2025, e nada disso passa pelo Estreito de Ormuz. Isso fez do petróleo brasileiro o barril que as refinarias asiáticas procuram quando a oferta do Golfo é incerta.

Os países asiáticos importaram cerca de 1,2 milhão de barris por dia de petróleo brasileiro em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, o volume subiu para aproximadamente 1,8 milhão. As compras da China passaram de cerca de 704 mil barris por dia em 2025 para 1,316 milhão; as da Índia, de cerca de 100 mil para 238 mil, e em abril o Brasil se tornou o quarto maior fornecedor da Índia. A Petrobras redirecionou as exportações: mais de 60% dos embarques vão hoje para a China.

O efeito na balança comercial foi imediato. O Brasil registrou superávit comercial de US$ 14,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, recorde para o período e 47,6% acima do primeiro trimestre de 2025. As exportações de petróleo cru cresceram 31%, para US$ 12,56 bilhões, com a China levando 57% delas. O Ministério da Fazenda estima que o Brent a US$ 100 gera receita equivalente a quase 1% do PIB acima do que o orçamento de 2026 previa.

Nada disso transforma o Brasil em substituto do Golfo. O próprio analista da Kpler é claro: a produção subiu só marginalmente desde março, e a viagem Brasil-China leva cerca de cinquenta dias. O que isso faz do Brasil é o fornecedor marginal a que o mundo recorre numa ruptura.

O preço na bomba é um problema brasileiro com resposta brasileira

O Brasil não está imune na bomba. O país ainda importa cerca de 30% do diesel que consome, porque a capacidade de refino não acompanhou a produção; a Petrobras colocou a autossuficiência em diesel como meta do plano 2027 a 2031. Quando o Brent dobrou, o diesel brasileiro acompanhou.

Duas coisas amorteceram o choque. A primeira é estrutural: desde agosto de 2025 a gasolina brasileira leva 30% de etanol e o diesel 15% de biodiesel, ambos produzidos no país, e por isso os biocombustíveis estavam na pauta quando o chanceler Merz e Lula abriram a feira em Hannover. A segunda é fiscal: o governo gasta até R$ 2,9 bilhões por mês subsidiando gasolina e diesel, e a Petrobras já havia recebido R$ 6,9 bilhões de subvenção ao diesel até meados de agosto. O resultado: os preços nas bombas brasileiras subiram cerca de 10% nas primeiras semanas da guerra, contra 30% a 40% nos Estados Unidos.

O quadro macro se sustentou. A inflação acumulada em doze meses foi de 4,44% em julho de 2026, de volta à banda da meta, e o Banco Central cortou a Selic para 14,00% em agosto. Cortava juros nos mesmos meses em que o Banco Central Europeu adiava os seus por causa da guerra.

Geografia

Os portos e o espaço aéreo do Brasil não foram tocados. As rotas diretas para a América do Norte e a Europa não cruzam a zona de conflito, o território não abriga bases militares estrangeiras e o país não tem papel militar na guerra; Lula a criticou publicamente, em Hannover e em outros lugares. O Golfo fica a mais de 10 mil quilômetros de São Paulo.

Essa distância vale mais do que parece. O Middle East Council on Global Affairs afirmou que a guerra abalou "de forma irreversível" a ideia do Golfo como lugar permanentemente seguro para expatriados e seu dinheiro. As comunidades de expatriados e investidores no Brasil não enfrentaram nada comparável.

Onde o Brasil está exposto: fertilizantes

A exposição está na agricultura. O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo: trouxe cerca de 46 milhões de toneladas em 2025 e cobre mais de 85% do consumo com produto de fora. Aproximadamente metade dessas importações passa normalmente pelo Estreito de Ormuz, e 28% das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados vieram de países do Golfo em 2023.

O preço da ureia disparou quando as cargas iranianas ficaram presas, e analistas da North Dakota State University estimam que um fechamento até o fim de 2026 reduziria as importações brasileiras de ureia no ano de abril de 2026 a março de 2027 em cerca de 27%. A leitura do IFPRI é que os produtores vão reagir como em 2022, reduzindo doses e migrando para culturas menos intensivas em insumos, como a soja, e que a oferta global de grãos é ampla o bastante para que os preços dos alimentos tenham ficado contidos até agora. O Brasil negocia compras de ureia da Indonésia para cobrir parte da lacuna.

É um risco para a safra 2026/27 e para as margens no campo. Não é um risco para o dia a dia de quem vive no Brasil, e é por isso que o título diz "um dos menos afetados", e não "não afetado".

O que isso muda para quem decide onde ter residência

Os mesmos seis meses pressionaram várias das alternativas com que investidores comparam o Brasil. A residência no Golfo foi testada pelos próprios ataques, os programas europeus pelo choque de energia, e os programas de passaporte do Caribe pela carta da Comissão Europeia, em junho, sobre a isenção de visto. A nossa posição é que uma segunda residência não deve depender de o mundo continuar calmo.

O Brasil é uma democracia de dimensão continental que produz a própria energia e a maior parte do próprio alimento, numa região sem guerras entre Estados, e concede residência permanente ao investidor estrangeiro desde o dia em que a autorização é publicada. Mais de 2.750 investidores de mais de 85 países usaram as três vias de investimento desde 2018; as contagens por via, ano e país de origem estão nas nossas páginas de dados, lidas das publicações do próprio governo.

Para a startup brasileira, o efeito prático é outro: o capital que procura um lugar estável para se instalar está olhando para o Brasil, e a via de investimento em startup é a que o traz para dentro de uma empresa, e não de um apartamento. Se a sua empresa quer ser encontrada por esse investidor, cadastre a sua startup.

Explore os dados abertos

Todos os deferimentos de residência por investimento publicados no Diário Oficial desde 2018, em um painel interativo e gratuito. Filtre por nacionalidade, via e estado brasileiro.